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A Relação entre Educação Transformadora e a Psicologia - Kátia de S. Faria Costa
por Administrador EducAção - terça, 2 abril 2013, 15:06
 

A Relação entre Educação Transformadora e a Psicologia

 

Por Kátia de S. Faria Costa, Psicóloga da Gerência de Ação Social.

 

A Psicologia da Educação trabalha com os conteúdos da Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem e suas relações com o processo de ensino-aprendizagem, pressupondo sujeitos historicamente situados.

A Psicologia da Educação, apesar de ser uma das áreas pela qual a psicologia foi introduzida no Brasil e na qual há grande quantidade de produções de pesquisa, ainda carece do reconhecimento social e do desenvolvimento necessário à participação na qualificação da educação brasileira.”

Seja qual for o paradigma orientador dessa disciplina ele deve estar vinculado ao objetivo da Educação que é o de formar cidadãos críticos comprometidos com a transformação social.

A relação entre Educação e Psicologia data do reconhecimento dessa última enquanto ciência, no século XIX. Desde então essas duas áreas do conhecimento humano estabelecem diálogos íntimos, que ganham contornos diferentes de acordo com o contexto no qual se desenrolam.

Na área da Educação Infantil o contrato inicial estabelecido com a Psicologia pregava a definição de normas de comportamento, e estabelecimento de parâmetros de classificação e as condições de normalidade relacionadas ao desenvolvimento humano, elegendo a Psicologia como uma área “dona de um saber específico” imprescindível à Educação. Essa Psicologia inicial, de cunho inatista, trazia uma visão naturalizante, individualista e elitista de homem.

Ao focar as diferenças individuais e estabelecer os parâmetros de normalidade, a Psicologia estabeleceu uma parceria ideológica com a Educação ao reforçar a idéia de um indivíduo isolado do meio social, a-histórico e dotado de características naturais próprias da sua espécie.

Alguns momentos na evolução da relação Psicologia-Educação podem ser facilmente detectados. Um primeiro momento revelou uma relação que propunha um olhar diagnóstico para o aluno. Foi o primado da psicologia das diferenças individuais, pautada na visão inatista de desenvolvimento e aprendizagem. Na escola os testes psicométricos (Q.I.) revelavam gênios, medíocres e incapazes profetizando o futuro escolar das crianças. Tal futuro se autorrealizava a partir das crenças suscitadas pelos números obtidos nos testes e aceitos pela escola como sentenças de sucesso ou fracasso. A Psicologia apoiava a escola na culpabilização do aluno pelo não-aprender e as questões institucionais não eram discutidas e nem, ao menos, tocadas. Termos médicos como hiperatividade, dislexia, déficit de atenção e outros invadiram o cotidiano escolar e rotularam comportamentos e dificuldades de aprendizagem.

A Educação, endossada pela Psicologia, passou a lidar mais facilmente com questões como indisciplina, desmotivação e dificuldades de aprendizagem, uma vez que tais questões estariam diretamente ligadas a fatores médicos, localizados no indivíduo.

A relação pedagógica, o papel da escola e as relações sociais estabelecidas dentro dela ficavam, portanto, não passíveis de análise, já que as explicações sobre o “mal” comportamento e a “não-aprendizagem” encontravam-se na própria criança. Os rótulos livravam a escola de uma análise mais comprometida e a poupavam de ter que enfrentar questões nas quais o óbvio não é dado à priori e as explicações não se encontram nos consultórios médicos, mas sim numa revisão do cotidiano escolar.

Um segundo momento caracterizou-se pelo olhar diagnóstico para a família e para as diferenças de classes sociais. A teoria da “carência cultural” ganhou espaço na escola, culpabilizando a condição social das crianças e suas famílias pelo seu fracasso escolar. A psicologia pautava-se na visão ambientalista de desenvolvimento e aprendizagem, defendendo a idéia de que o ser humano nasce como uma “folha em branco” que será impressa graças às pressões do meio.

Tal crença propunha aos professores ações extremamente diretivas, uma vez que esses deveriam planejar e executar planos de ensino com objetivos claros e pré-definidos. Nesta concepção não havia espaço para a espontaneidade da infância: sua capacidade de imaginação, fantasia e criação.

O momento seguinte, após a década de 70, revelou uma Psicologia crítica que buscava realizar um olhar diagnóstico para a sociedade e as instituições escolares. Houve forte influência das teorias crítico-reprodutivas (Althusser, Bourdieu e outros) que entendiam a escola como um “aparelho” ideológico do Estado, reproduzindo a desigualdade de classes e mantendo os membros de classes inferiores nos patamares educacionais mais baixos. A atuação psicológica estava vinculada à psicologia institucional, atuando na crítica à produção escolar.

Atualmente a Psicologia busca um diálogo com a Educação tentando fazer parte de seu cotidiano, para que possa entender seu funcionamento a partir de dentro. A Psicologia não pretende colocar-se como a ciência que determina o que é normal ou patológico e que define critérios de avaliação do desenvolvimento infantil. Construir objetos de pesquisa com a Educação (e não para a Educação) e entender o contexto educativo como um microssistema social é o que deve buscar a Psicologia em sua relação com a Educação.

Na Educação Infantil a parceria propõe esforços no sentido de alcançar o objetivo dessa modalidade de ensino que é o desenvolvimento integral da criança num ambiente socializador, considerando a infância em suas especificidades.

Este é o ponto a partir do qual se deve retornar ao início dessa discussão. Da compreensão desse processo, podemos nos lançar de maneira mais efetiva à construção de uma Psicologia Escolar, Educacional e Social, comprometida de fato com uma educação democrática, submetida aos interesses da sociedade. Este é, por sua vez, o compromisso que define e determina as perspectivas que estão postas para essa área de conhecimento e campo de atuação do psicólogo.

 

REFERÊNCIAS:

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FERRAZ. R. C. Gênero, Masculinidade e Docência: visões de alunos de Pedagogia. Disponível em: //WWW.fazendogenero7.ufsc.br/R/Raimundo Cassiano Ferraz

JORNAL DO FEDERAL. Psicologia da Educação nas Escolas Públicas: a intervenção necessária. WWW.pol.org.br 08/2005.

PIMENTA, S. G. Pesquisa-ação crítico-colaborativa: construindo seu significado a partir de experiências com a formação docente. Educ. Pesq., v.31, n.º 03, São Paulo. Set./Dez., 2005.

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